22.5.17

há dois meses o câncer é outro. não entendo como os dias, sempre tão cheios, podem passar como um fio na minha mente. não olhar para os lados enquanto pedalo. não sentir gosto de comida alguma. não sentir prazer em nada. um ácido gosto de rancor se espalha pelas entranhas, o mundo para e volta a ser mundo três, quatro, cinco! quantas vezes por dia? um soluço que nunca vai embora, um catarro na garganta insistente. dias sobre fingir que esquecemos e perdoamos, longas conversas sobre o que podia ser feito de melhor. sobre lembrar que o humano no fundo é um grande pedaço de lixo. nós nunca olharemos a dor do outro pois não somos capazes de parar de admirar a nossa própria - tão dilacerável, única e merecedora de atenção. e faz tempo que você insiste em dizer que sente saudades do sol. tudo é branco e tem cheiro de hospital.

16.3.17

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz


1.10.16

memória

amar o perdido
deixa confundido
este coração.

nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do "Não".

as coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

as as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

- Drummond.

15.8.16

Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.
- Hilda Hilst

3.6.16

''Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa rapacidade
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes."

6.5.16

"enquanto no mundo
tem gente pensando
que sabe muito,
eu apenas sinto.
muito."
- drummond

21.2.16

Existem risos que calam diversos estágios de esperança, mas não me submeto as vertigens do que não se cria em solo fértil. Está na porta de entrada de um condomínio. Se chama: Condomínio transitório. Com domínio transitório. É o que sentia naqueles dias amargos. Tão transitório quanto duradouro, esse acaso. Tinha dias que os livros do Drummond não conseguiam me matar. Havia sim algo de muito errado em mim. E aí eu pensava: por que disso tudo, por que não reencarnar nas palavras de outro condomínio? Por que sempre esse domínio raro de se deleitar entre paredes úmidas? Mendiguei com fome de estrelas, um céu inteiro para repor o brilho do fatal acidente. 

Até que um dia um outro amor chegou e bateu de frente...

4.3.15

cintilante aroma do teu pecado
caio absoluta no erro e covardia
mas intensa tua mão me repercute a pele
e longe sobre o ventre escorre a linha brilhosa e indivisível
fina, do constante verso.
ama-se enfim o ponto de partida.
insisto todas as cores de minha paleta
no pincel de suas custas.
amargura descabida é o venerar
do nosso doce encanto despudorado.
membro de minha membrana uterina
véu concreto dos dessaberes
te sintonizo
e chego ao céu
de cinco em cinco minutos

5.1.15

Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos

Pintura, Ferreira Gullar

2.1.15

me condensa e define
pelo simples fato de sugar
tão lentamente e bobo
meus desejos sempre indigestos

e beijar doce
minha pobre feição matinal

20.11.14


Bem, crianças, onde há muita confusão deve haver algo de errado. Penso que entre os negros do Sul e as mulheres do Norte, todos falando sobre direitos, os homens brancos vão muito em breve ficar num aperto. Mas sobre o que todos aqui estão falando?
Aquele homem ali diz que as mulheres precisam ser ajudadas a entrar em carruagens, e erguidas para passar sobre valas e ter os melhores lugares em todas as partes. Ninguém nunca me ajudou a entrar em carruagens, a passar por cima de poças de lama ou me deu qualquer bom lugar! E não sou mulher? Olhem pra mim! Olhem pro meu braço! Tenho arado e plantado, e juntado em celeiros, e nenhum homem poderia me liderar! E não sou uma mulher? Posso trabalhar tanto quanto e comer tanto quanto um homem - quando consigo o que comer - e aguentar o chicote também! E não sou uma mulher? Dei à luz treze filhos, e vi a grande maioria ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei com minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus me ouviu! E não sou mulher?
Então eles falam sobre essa coisa na cabeça; como a chamam mesmo? [alguém na platéia sussurra, "intelecto"] É isso, meu bem. O que isso tem a ver com os direitos das mulheres ou dos negros? Se a minha xícara não comporta mais que uma medida, e a sua comporta o dobro, você não vai deixar que a minha meia medidazinha fique completamente cheia?
Depois aquele homenzinho de preto ali disse que as mulheres não podem ter tantos direitos quanto os homens, porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com Ele.
Se a primeira mulher feita por Deus teve força bastante para virar o mundo de ponta-cabeça sozinha, estas mulheres juntas serão capazes de colocá-lo na posição certa novamente! E agora que elas estão querendo fazê-lo, é melhor que os homens permitam.
Obrigado aos que me ouviram, e agora a velha Sojourner não tem mais nada a dizer.

20.10.14

lavoura arcaica

”[…] e quando menos se esperava, Ana (que todos julgavam sempre na capela) surgiu impaciente numa só lufada, os cabelos soltos espalhando lavas, ligeiramente apanhados num dos lados por um coalho de sangue (que assimetria mais provocadora!), toda ela ostentando um deboche exuberante, uma borra gordurosa no lugar da boca, uma pinta de carvão acima do queixo, a gargantilha de veludo roxo apertando-lhe o pescoço, um pano murcho caindo feito flor da fresta escancarada dos seios, pulseiras nos braços, anéis nos dedos, outros aros nos tornozelos, foi assim que Ana, coberta com as quinquilharias mundanas da minha caixa, tomou de assalto a minha festa, varando com a peste no corpo o círculo que dançava, introduzindo com segurança, ali no centro, sua petulante decadência, assombrando os olhares de espanto, suspendendo em cada boca o grito, paralisando os gestos por um instante, mas dominando a todos com seu violento ímpeto de vida, e logo eu pude adivinhar, apesar da graxa que me escureceu subitamente os olhos, seus passos precisos de cigana se deslocando no meio da roda, desenvolvendo com destreza gestos curvos entre as frutas e as flores dos cestos, só tocando a terra na ponta dos pés descalços, os braços erguidos acima da cabeça serpenteando lentamente ao trinado da flauta mais lento, mais ondulante, as mãos graciosas girando no alto, toda ela cheia de uma selvagem elegância, seus dedos canoros estalando como se fossem, estava ali a origem das castanholas, e em torno dela a roda passou a girar cada vez mais veloz, mais delirante, as palmas de fora mais quentes e mais fortes, e mais intempestiva, e magnetizando a todos, ela roubou de repente o lenço branco do bolso de um dos moços, desfraldando-o com a mão erguida acima da cabeça enquanto serpenteava o corpo, ela sabia fazer as coisas, essa minha irmã, esconder primeiro bem escondido sob a língua a peçonha e logo morder o cacho de uva que pendia em bagos túmidos de saliva enquanto dançava no centro de todos, fazendo a vida mais turbulenta, tumultuando dores, arrancando gritos de exaltação, e logo entoados em língua estranha começaram a se elevar os versos simples, quase um cântico, nas vozes dos mais velhos, e um primo menor e mais gaiato, levado na corrente, pegou duas tampas de panelas fazendo os pratos estridentes, e ao som contagiante parecia que as garças e os marrecos tivessem voado da lagoa pra se juntarem a todos ali no bosque, e Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo lance alongando o braço, e, com graça calculada (que demônio mais versátil!), roubou de um circundante a sua taça, logo derramando sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado retrocesso lânguido, provocando a ovação dos que a cercavam, era a voz surda de um coro ao mesmo tempo sacro e profano que subia, era a comunhão confusa de alegria, anseios e tormentos, ela sabia surpreender, essa minha irmã, sabia molhar a sua dança, embeber a sua carne, castigar a minha língua no mel litúrgico daquele favo, me atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo convulso e antecedente, me fazendo ver com espantosa lucidez as minhas pernas de um lado, os braços de outro, todas as minhas partes amputadas se procurando na antiga unidade do meu corpo (eu me reconstruía nessa busca! que salmoura nas minhas chagas, que ardência mais salubre nos meus transportes!), eu que estava certo, mais certo do que nunca, de que era para mim, e só para mim, que ela dançava”.
Raduan Nassar

12.5.14


“Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias
 e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, 
te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és…”

Flor Garduño, La mujer que sueña.

Pinotepa Nacional, México, 1991

21.8.13

Vendrás conmigo, 

sin que nadie supiera dónde y
cómo latía mi estado doloroso,
y para mí 
no había clavel ni barcarola,
nada sino 
una herida por el amor abierta.
Repetí: 
ven conmigo, como si me muriera,
y nadie vio en mi boca la luna que sangraba,
nadie
vio aquella sangre que subía al silencio.
¡Amor,
ahora olvidemos la estrella con espinas!
Por eso
cuando oí que tu voz repetía
”Vendrás
conmigo”, fue como si desataras
dolor, amor,
la furia del vino encarcelado
que desde su
bodega sumergida subiera
y otra
vez en mi boca sentí un sabor de llama,
de sangre
y de claveles, de piedra y quemadura.

Pablo Neruda