22.5.17

há dois meses o câncer é outro. não entendo como os dias, sempre tão cheios, podem passar como um fio na minha mente. não olhar para os lados enquanto pedalo. não sentir gosto de comida alguma. não sentir prazer em nada. um ácido gosto de rancor se espalha pelas entranhas, o mundo para e volta a ser mundo três, quatro, cinco! quantas vezes por dia? um soluço que nunca vai embora, um catarro na garganta insistente. dias sobre fingir que esquecemos e perdoamos, longas conversas sobre o que podia ser feito de melhor. sobre lembrar que o humano no fundo é um grande pedaço de lixo. nós nunca olharemos a dor do outro pois não somos capazes de parar de admirar a nossa própria - tão dilacerável, única e merecedora de atenção. e faz tempo que você insiste em dizer que sente saudades do sol. tudo é branco e tem cheiro de hospital.

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